Extintores a bordo: classes de incêndio, capacidade extintora e o que a norma exige
Por Equipe CarteiraNáutica ·
Incêndio a bordo é diferente de incêndio em terra por um motivo simples: não há para onde correr. Por isso o programa do exame de Arrais-Amador cobra prevenção, combate e o manuseio correto de extintores — e a NORMAM-211 dedica um artigo inteiro à classificação deles.
Este artigo explica as três classes de incêndio, o que significa aquele código estranho estampado no extintor, a diferença entre portátil e semiportátil, e as regras de manutenção que fazem um extintor deixar de valer.
As três classes de incêndio
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A norma classifica em três, e a definição de cada uma traz a instrução de combate embutida:
Classe A — materiais sólidos que deixam resíduos. Madeira, papel, almofadas, fibra de vidro, borracha e plásticos. E vem a frase que decide questão de prova: somente nessa classe de incêndio a água pode ser usada com segurança.
Classe B — líquidos, gases e graxas combustíveis ou inflamáveis. É a classe do combustível, e a mais provável numa embarcação a motor. Água aqui espalha o fogo.
Classe C — equipamentos e instalações elétricas energizados. E a observação que fecha a lógica: se esses equipamentos estiverem desenergizados, o incêndio passa a ser Classe A. Desligar a chave geral muda a classe do incêndio, e portanto muda o que você pode usar contra ele.
Essa última é a ideia mais útil do assunto. Classe C não é sobre o que está queimando — é sobre a energia presente. Corte a energia e o problema vira classe A.
O código do extintor: o que significa 2-A:20-B:C
Todo extintor traz uma combinação de números e letras. A norma explica a leitura:
"A letra indica a classe do incêndio para o qual se espera utilizar o extintor, enquanto que o número representa o tamanho relativo da unidade."
Esse número é a capacidade extintora — "a medida do poder de extinção de fogo de um extintor, obtida em ensaio prático normalizado". Em outras palavras: o tamanho do fogo que aquele extintor dá conta de apagar, em cada classe.
Lendo o exemplo da própria norma, 2-A:20-B:C:
| Trecho | Significado |
|---|---|
| 2-A | tamanho do fogo classe A que ele apaga |
| 20-B | tamanho do fogo classe B que ele apaga |
| C | adequado para incêndio classe C |
Repare que a classe C aparece sem número. Faz sentido: não se mede "tamanho de fogo elétrico" — o que importa é se o agente extintor conduz eletricidade ou não.
A capacidade extintora mínima por tipo de carga
A norma fixa o mínimo para cada tipo:
| Carga | Capacidade extintora mínima |
|---|---|
| Água | 2-A |
| Espuma mecânica | 2-A:10-B |
| CO₂ | 5-B:C |
| Pó BC | 20-B:C |
| Pó ABC | 2-A:20-B:C |
| Compostos halogenados | 5-B |
Duas leituras práticas para embarcação de recreio:
O pó ABC é o mais versátil. É o único da lista com capacidade nas três classes — e numa embarcação, onde convivem estofamento (A), combustível (B) e painel elétrico (C), essa cobertura vale bastante.
Água só serve para classe A. O extintor de água tem capacidade 2-A e nada mais. Ele não aparece nas classes B e C porque não deve ser usado nelas.
Portátil ou semiportátil
A divisão é por peso, e é objetiva:
- Peso bruto de 20 kg ou menos, quando carregado: portátil.
- Acima de 20 kg: semiportátil — e nesse caso deve possuir mangueiras e esguichos adequados, ou outros meios praticáveis, para atender todo o espaço a que se destina.
Ou seja, o extintor grande não é "um portátil maior": ele muda de categoria e passa a exigir acessórios de alcance.
Localização
A norma remete a localização às regras gerais de instalação e acrescenta o critério que importa:
"A localização dos extintores deverá ser aquela que se configura a mais conveniente em caso de emergência."
Convém pensar isso ao contrário: o extintor precisa estar onde você consegue pegá-lo com o fogo já começado, não onde ele fica bonito. Extintor guardado dentro do compartimento do motor é inútil se o incêndio for no motor.
Manutenção e validade
Extintores portáteis precisam estar em bom estado e dentro dos prazos de validade e de revisão, como todo equipamento de segurança exigido pela norma. Extintor vencido não conta para a dotação.
Cilindros de sistemas fixos de combate a incêndio têm regra própria: teste hidrostático a cada cinco anos. Se tiverem sido inspecionados anualmente, sem perda de pressão, sem corrosão e sem descarga no período, o teste pode ser postergado por mais cinco anos em no máximo 50% dos cilindros do sistema — os demais são testados nos cinco anos seguintes. E se qualquer cilindro apresentar resultado insatisfatório, todos os demais do sistema devem ser testados.
Prevenção: o gás de cozinha
Prevenção também é matéria de prova, e a norma tem exigências específicas para as instalações de gás de cozinha:
- Os botijões devem ficar em áreas externas ou em compartimento não habitável, isolado de compartimento habitável, em local seguro e arejado, com a válvula protegida da ação direta dos raios solares e afastados de fontes que possam causar ignição.
- As canalizações de distribuição devem ter proteção adequada contra o calor e, quando flexíveis, atender às normas da ABNT.
Some-se a isso o que o programa do exame cobra em prevenção e que a norma trata em outro ponto: os pontos de ignição e de fulgor da gasolina, do etanol e do diesel, e o procedimento de abastecimento da embarcação — os dois itens mais esquecidos pelo material de estudo, como aponta o programa da prova organizado por assunto.
FAQ
Quais são as classes de incêndio?
Classe A, para materiais sólidos que deixam resíduos; Classe B, para líquidos, gases e graxas combustíveis ou inflamáveis; e Classe C, para equipamentos e instalações elétricas energizados.
Posso usar água em qualquer incêndio?
Não. A norma é explícita: somente na classe A a água pode ser usada com segurança.
Um incêndio elétrico deixa de ser classe C?
Deixa, se os equipamentos forem desenergizados. Nesse caso o incêndio passa a ser classe A.
O que significa 2-A:20-B:C no extintor?
É a capacidade extintora: 2-A é o tamanho do fogo classe A que ele apaga, 20-B o tamanho do fogo classe B, e o C indica que ele é adequado para incêndio classe C. É a capacidade mínima exigida para a carga de pó ABC.
Qual extintor é mais indicado para embarcação?
A norma não elege um. Vale observar que o pó ABC é o único cuja capacidade mínima cobre as três classes — 2-A:20-B:C —, o que é conveniente num ambiente que reúne estofamento, combustível e instalação elétrica.
Qual a diferença entre extintor portátil e semiportátil?
O peso bruto quando carregado: até 20 kg é portátil; acima disso, semiportátil — e o semiportátil deve ter mangueiras e esguichos adequados para atender todo o espaço a que se destina.
De quanto em quanto tempo se testa o cilindro do sistema fixo?
Teste hidrostático a cada cinco anos, com possibilidade de postergação por mais cinco em até 50% dos cilindros, se houver inspeção anual sem perda de pressão, corrosão ou descarga.
Onde devo guardar o botijão de gás?
Em área externa ou compartimento não habitável, isolado dos compartimentos habitáveis, seguro e arejado, com a válvula protegida do sol e longe de fontes de ignição.
Resumo
Três classes: A para sólidos que deixam resíduo — a única em que água é segura; B para líquidos, gases e graxas; C para elétrico energizado, que vira classe A assim que você corta a energia.
O código do extintor é capacidade extintora: em 2-A:20-B:C, os números dizem o tamanho de fogo que ele apaga em cada classe, e o C entra sem número. Pó ABC é o único cuja capacidade mínima cobre as três.
Até 20 kg é portátil; acima, semiportátil com mangueira. E extintor fora da validade, como qualquer equipamento de segurança, não conta para a dotação.
Incêndio é uma das dez frentes do programa. Faça um simulado grátis de Arrais-Amador — resultado por unidade e a norma citada em cada resposta.
Por Equipe CarteiraNáutica
Escrevemos sobre a habilitação náutica amadora da Marinha — Arrais-Amador, Motonauta, Mestre-Amador — sempre com a norma de origem citada na resposta.