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Cabos e amarras a bordo: material, cuidado e quando trocar

Por Equipe CarteiraNáutica ·

O cabo de amarração do seu barco tem quantos anos? Se você não sabe responder, ele provavelmente já passou da hora. Cabo é o item de segurança mais barato de bordo, o mais fácil de trocar e o único que ninguém troca — porque, ao contrário do extintor, ele não tem data de validade impressa.

Cabo é também um assunto em que a norma fala mais do que se imagina. A NORMAM-211 fixa comprimento mínimo para a linha da âncora, comprimento e material para a retinida das boias, e a NORMAM-212 chega a fixar diâmetro. Este artigo separa o que é exigência de norma do que é escolha técnica: o vocabulário correto, qual fibra serve para cada emprego, o que destrói um cabo e como reconhecer que ele já era. Os nós que amarram tudo isso estão em nós náuticos essenciais.

Cabo, amarra e retinida: o vocabulário da norma

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Os três termos aparecem na NORMAM-211 com sentidos diferentes, e trocá-los muda a resposta de uma questão de prova.

  • Cabo é a corda, de fibra. É o termo genérico a bordo, e vale lembrar que na linguagem náutica corda quase não se usa.
  • Amarra é a corrente. Quando a norma escreve "cabo ou amarra", ela está oferecendo duas opções de material, não repetindo a mesma palavra.
  • Retinida é o cabo leve preso a um objeto que vai para a água — tipicamente a boia salva-vidas — para que se possa recuperá-lo ou puxá-lo.
  • Chicote é a ponta livre do cabo. O termo aparece na norma numa exigência específica, adiante.

Onde a norma fixa comprimento, e onde fixa material

Três dispositivos concentram o que é obrigatório.

A linha da âncora. O item 4.18.4 da NORMAM-211:

"Âncora - todas as embarcações, exceto as miúdas, devem estar dotadas de uma âncora compatível com o tamanho da embarcação e com, no mínimo, vinte metros de cabo ou amarra."

Vinte metros é o piso de dotação. Quanto largar na hora de fundear é outra conta — de cinco a sete vezes a profundidade local, como detalha o cálculo do comprimento da amarra.

A retinida das boias. Aqui a norma fixa comprimento e, num segundo ponto, o material. O item 4.15 estabelece que pelo menos uma das boias salva-vidas deve ter "uma retinida flutuante de comprimento igual ao dobro da altura na qual ficará estivada, em relação a linha de flutuação da embarcação, ou 20 m, o que for maior".

Repare na fórmula: não é vinte metros fixos, é o maior valor entre vinte metros e o dobro da altura de estiva. Num barco alto, o número sobe.

E a lista de verificação do Anexo 3-B acrescenta a especificação de material:

"verificar se as retinidas das boias salva-vidas possuem, pelo menos 20 metros de comprimento e se são feitas de material sintético e capazes de flutuar."

Material sintético e capaz de flutuar é uma das poucas vezes em que a norma escolhe a fibra por você, e a razão é óbvia quando se pensa no uso: retinida que afunda enrosca no hélice e desaparece da vista de quem está na água.

O mesmo item 4.15 traz ainda uma exigência que quase todo barco descumpre: as boias "não devem ficar presas permanentemente à embarcação, devem ficar suspensas em suportes fixos com sua retinida, cujo chicote não deve estar amarrado à embarcação". A lista de vistoria repete o ponto. Boia amarrada no balaústre não é boia, é enfeite — ela precisa poder ir com a pessoa.

O cabo de reboque da moto aquática. A NORMAM-212 é a mais específica de todas ao tratar das motos aquáticas de aluguel e de apoio, exigindo "cabo de reboque de 10mm de diâmetro, com no mínimo 25m de comprimento, e mosquetão de engate rápido". É a única vez em que a norma fixa bitola. Vale para o cenário de aluguel e apoio, tratado em jet ski exige habilitação, e não para a moto particular.

Uso O que a norma exige Onde
Linha da âncora mínimo 20 m de cabo ou amarra, exceto miúdas NORMAM-211, 4.18.4
Retinida da boia maior entre 20 m e o dobro da altura de estiva; sintética e flutuante NORMAM-211, 4.15 e Anexo 3-B
Reboque de moto aquática de aluguel ou apoio 10 mm de diâmetro, mínimo 25 m, com mosquetão NORMAM-212

Três fibras, três empregos

Fora do que a norma especifica, a escolha é técnica. Praticamente todo cabo de bordo hoje é sintético, e três famílias cobrem o uso de recreio. O que as separa é o quanto esticam e o quanto aguentam sol.

Poliamida, o náilon. É a mais elástica das três, e essa elasticidade é a qualidade, não o defeito: ela absorve o repuxo da onda em vez de transmiti-lo ao ponto de fixação. É a fibra dos cabos de amarração, da linha de fundeio e do reboque de emergência — exatamente os casos em que a carga chega em solavanco. Perde parte da resistência molhada e recupera ao secar.

Poliéster. Estica pouco e resiste bem ao sol e à abrasão. É a fibra de quando se quer controle e não amortecimento — escotas, adriças e cabos de trabalho que ficam expostos o tempo todo. Num cabo de fundeio, o baixo estiramento é desvantagem: cada onda vira um puxão seco na âncora.

Polipropileno. É a única das três que flutua, e é leve e barata. Em compensação, degrada rápido sob luz solar e tem resistência menor. É a fibra natural para retinida e cabo de resgate, que é justamente onde a norma pede material sintético e flutuante — e é má escolha para amarração permanente, porque o sol come o cabo em uma ou duas temporadas.

A regra prática: se a carga chega em solavanco, quer náilon; se precisa flutuar, quer polipropileno; se fica no sol o ano inteiro sob carga constante, quer poliéster.

Por que um trecho de amarra muda o fundeio

A norma permite âncora com "cabo ou amarra", e a escolha entre os dois tem consequência prática.

Corrente pesa, e esse peso trabalha a favor. Ela forma uma curva entre a proa e o fundo — a catenária — que faz a tração chegar à âncora quase na horizontal, que é o ângulo em que a unha crava. Quando uma rajada estica o conjunto, é o peso da corrente que é levantado primeiro, e ele funciona como amortecedor antes que a força chegue à âncora.

Corrente também é o que resiste ao fundo. O trecho final da linha é o que arrasta em pedra, cascalho e concha a cada giro do barco, e é ali que cabo de fibra se serra. Por isso a montagem mais comum em embarcação de recreio combina os dois: um trecho de amarra junto à âncora, emendado a cabo de náilon até a proa. Fica-se com o peso e a resistência à abrasão onde eles importam, e com a leveza e a elasticidade no resto.

Corrente tem o custo do peso a bordo, que em barco pequeno mexe com o trim, e enferruja se não for galvanizada ou inoxidável.

O que mata um cabo

Quatro coisas, e nenhuma delas avisa.

O sol. A radiação ultravioleta quebra a fibra por dentro. O sinal é a superfície que perde o brilho, desfia num pó fino e endurece. É o inimigo número um do cabo que vive amarrado no cais.

A abrasão. O atrito no passador, na borda do convés ou no fundo desgasta o cabo num ponto só, e é sempre no mesmo ponto. Cabo que trabalha sempre na mesma posição gasta ali e parece novo no resto. Proteger a passagem e mudar o ponto de trabalho de vez em quando dobra a vida útil.

A carga de choque. Puxão seco a plena carga rompe mais cabo que carga estática alta. É por isso que reboque com cabo curto e tesado arrebenta ferragem, como explica pane seca e reboque, e por que fundeio com pouco cabo largado castiga tudo.

O que fica dentro. Areia e sal secos viram lixa entre as fibras, trabalhando o cabo por dentro a cada flexão. Enxaguar em água doce e deixar secar à sombra não é capricho.

Quando aposentar

Cabo não tem prazo de validade impresso, e por isso o critério é a inspeção. Passe o cabo inteiro pela mão, palmo a palmo, uma vez por temporada, procurando:

  • Fios rompidos na superfície, principalmente concentrados em um trecho
  • Endurecimento — cabo que perdeu a flexibilidade original perdeu resistência
  • Redução visível de diâmetro em um ponto, sinal de abrasão localizada
  • Superfície vitrificada ou brilhante, indício de calor por atrito
  • Descoloração forte e superfície empoeirada, típicas de degradação por sol
  • Ponta desfiada, que abre e não passa mais em passador nem forma olhal

Um detalhe que economiza dinheiro: cabo gasto só na ponta pode ser cortado e rematado, ganhando mais uma temporada. Cabo com dano no meio do comprimento vai fora inteiro.

E há um cuidado que vale mais que todos os outros juntos e que a própria norma coloca em forma de advertência. O item 6 do Anexo 4-B da NORMAM-211 avisa que o cabo de fundeio não deve ser amarrado próximo ao motor, porque o peso do motor pode somar-se à tração vertical do cabo e provocar emborcamento e afundamento da embarcação. O cabo mais novo do mundo, preso no lugar errado, afunda o barco.

FAQ

Qual a diferença entre cabo e amarra?

Cabo é a corda de fibra; amarra é a corrente. Quando a NORMAM-211 escreve "cabo ou amarra" no item 4.18.4, está dando duas opções de material para a linha da âncora, e não repetindo o mesmo termo.

Quantos metros de cabo a âncora precisa ter?

No mínimo vinte metros de cabo ou amarra, para todas as embarcações exceto as miúdas, conforme o item 4.18.4 da NORMAM-211. Esse é o piso de dotação a bordo — o comprimento a largar ao fundear é de cinco a sete vezes a profundidade local.

Qual o comprimento da retinida da boia salva-vidas?

O maior valor entre vinte metros e o dobro da altura em que a boia fica estivada, medida em relação à linha de flutuação. A regra está no item 4.15 da NORMAM-211, e a lista de verificação do Anexo 3-B exige ainda que a retinida seja de material sintético e capaz de flutuar.

Posso amarrar a boia salva-vidas na embarcação?

Não. O item 4.15 determina que as boias não fiquem presas permanentemente à embarcação e que o chicote da retinida não esteja amarrado a bordo. Elas devem ficar suspensas em suportes fixos, de onde possam ser lançadas junto com a pessoa que vai usá-las.

Que material devo escolher para o cabo de amarração?

Poliamida, o náilon, na maioria dos casos. Ele é o mais elástico dos sintéticos usados a bordo e absorve o repuxo da onda em vez de transmiti-lo ao ponto de fixação. Poliéster serve melhor onde se quer baixo estiramento, e polipropileno é indicado para retinida por flutuar, mas degrada rápido no sol.

Existe diâmetro mínimo de cabo exigido por norma?

Para embarcações em geral, não. A NORMAM-212 fixa bitola apenas no cabo de reboque das motos aquáticas de aluguel e de apoio: 10 mm de diâmetro, no mínimo 25 metros de comprimento, com mosquetão de engate rápido.

Como sei que está na hora de trocar o cabo?

Pela inspeção manual, palmo a palmo, uma vez por temporada. Fios rompidos concentrados num trecho, endurecimento, redução de diâmetro num ponto, superfície vitrificada ou empoeirada e ponta desfiada são os sinais. Dano só na ponta permite cortar e rematar; dano no meio condena o cabo inteiro.

Por que usar um trecho de corrente junto à âncora?

Por duas razões. O peso da corrente faz a tração chegar à âncora quase na horizontal, que é o ângulo em que a unha crava, e funciona como amortecedor nas rajadas. E é o trecho final da linha que arrasta no fundo a cada giro do barco, onde cabo de fibra se serra por abrasão.

Resumo

Cabo é equipamento de segurança, e a norma o trata como tal em três pontos: vinte metros mínimos de cabo ou amarra para a âncora, retinida de boia com o maior valor entre vinte metros e o dobro da altura de estiva — sintética e flutuante —, e cabo de reboque de 10 mm por 25 metros nas motos aquáticas de aluguel e de apoio.

Fora disso, a escolha é técnica e cabe em uma frase: náilon onde a carga chega em solavanco, poliéster onde o cabo vive no sol sob carga constante, polipropileno onde precisa flutuar. Um trecho de amarra junto à âncora resolve de uma vez o ângulo de tração e a abrasão no fundo.

O que destrói cabo é sol, abrasão localizada, carga de choque e sal seco entre as fibras — e nenhum deles avisa antes. A defesa é passar o cabo pela mão uma vez por temporada e trocar sem dó, porque é o item mais barato de bordo.


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CarteiraNáutica

Por Equipe CarteiraNáutica

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