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Fundeio: como escolher o local e calcular o comprimento da amarra

Por Equipe CarteiraNáutica ·

Você chegou na enseada, desligou o motor e largou o ferro. Vinte minutos depois, olhando a margem, percebe que a árvore que estava na sua frente agora está bem mais para trás. A âncora não pegou — ou pegou e garrou — e você acabou de descobrir que fundear não é jogar peso na água.

A maior parte do que se lê sobre fundeio na internet é opinião de marina, e a maior parte do que se lê sobre a norma para no que é proibido. A NORMAM-211, porém, tem um item que quase ninguém cita e que resolve a dúvida central: ela diz de quanto deve ser o comprimento do cabo. Este artigo traz esse número, mostra como calcular a profundidade certa para aplicá-lo, e cobre a escolha do fundo e o procedimento que a própria norma descreve.

Se a sua dúvida for onde a lei permite largar ferro, isso está em onde é permitido fundear. Aqui o assunto é técnica.

O número que a norma dá

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O Anexo 4-B da NORMAM-211, no item 6, tem o título mais direto possível — "Procedimentos para fundear a embarcação" — e diz:

"As embarcações deverão fundear, aproadas ao vento ou à corrente, com motor de propulsão em posição neutra, isto é, fora de marcha. A âncora deverá ser lançada quando a embarcação perder o segmento, usando uma extensão de cabo com comprimento aproximado de cinco a sete vezes a profundidade local."

São quatro instruções em duas frases. Aproado ao vento ou à corrente. Motor em neutro. Lançar quando a embarcação perder o seguimento — o texto da norma escreve "segmento", mas o sentido é seguimento, que é o deslocamento residual da embarcação pela água depois de cortada a propulsão. E o comprimento de cabo: cinco a sete vezes a profundidade local.

Essa relação tem nome na marinharia — chama-se relação de cabo, ou o inglês scope — e existe por geometria, não por tradição. A âncora só segura se a tração no fundo for horizontal. Cabo curto puxa a âncora para cima e a arranca; cabo longo faz o cabo trabalhar deitado no fundo e enterra mais a unha a cada puxão. Cinco a sete vezes a profundidade é o que produz esse ângulo.

Vale separar esse número de outro que já aparece na norma e que confunde muita gente. O item 4.18.4 exige que toda embarcação, exceto as miúdas, tenha "uma âncora compatível com o tamanho da embarcação e com, no mínimo, vinte metros de cabo ou amarra". Esses vinte metros são dotação obrigatória a bordo, não recomendação de fundeio. Numa profundidade de cinco metros, a norma manda largar de vinte e cinco a trinta e cinco metros — mais do que o mínimo que ela exige que você carregue.

Profundidade não é o que o ecobatímetro mostra

Aqui está o erro de conta mais comum, e ele é o motivo de metade das âncoras que garram.

O ecobatímetro mede da quilha ou do transdutor até o fundo. Mas o cabo não sai da quilha: ele sai do ponto de fixação, lá em cima, na proa. E a profundidade não é a de agora: é a que vai existir na preamar, quando a maré subir.

A conta correta soma três coisas:

  1. A profundidade medida no local.
  2. A altura do ponto de fixação acima da água — a distância entre a linha d'água e o cunho de proa.
  3. A amplitude da maré até a preamar seguinte.

Só depois disso é que se multiplica por cinco a sete.

Um exemplo concreto. Ecobatímetro marcando 4 metros, proa a 1 metro acima da água, e a tábua indicando mais 1,5 metro de maré até a preamar. A profundidade de cálculo não é 4, é 6,5 metros. Aplicando o fator da norma, o cabo vai de 32,5 a 45,5 metros — contra os 20 a 28 que sairiam da conta ingênua. É essa diferença que faz o barco amanhecer no lugar ou na pedra.

A amplitude você tira da tábua de marés, e ela varia muito conforme a fase da lua. Em maré de sizígia, a amplitude é bem maior que em quadratura, e fundear numa e amanhecer na outra é uma armadilha clássica.

A própria norma cobra essa atenção. A lista de verificação do Anexo 5-F, no item 13, manda:

"Ao fundear, o faça com baixa velocidade e utilize um comprimento de amarra adequado, considerando a amplitude da maré e as embarcações próximas."

Escolher o lugar: fundo, abrigo e vizinhança

Encontrado o lugar permitido, três critérios decidem se ele é bom.

O fundo. É ele que segura, não a âncora. Areia e lama firme são os melhores para a maioria das âncoras de recreio — a unha penetra e o material se compacta em volta. Pedra e cascalho seguram por travamento, o que pode significar não pegar nada ou pegar tão bem que a âncora não sai. Vegetação densa é o pior caso: a unha desliza sobre o tapete de folhas sem nunca alcançar o fundo, e o fundeio parece firme até o primeiro rajada. A carta náutica traz a natureza do fundo em abreviatura, e é informação de planejamento, não de curiosidade.

O abrigo. Fundeie protegido do vento e da onda previstos para o período em que vai ficar — não para os que estão agora. Enseada excelente à tarde vira armadilha se o vento rondar à noite e a deixar aberta.

A vizinhança. Barcos fundeados giram em torno da própria âncora conforme vento e corrente mudam, e o raio desse giro é o comprimento do cabo largado, mais o comprimento do barco. Um vizinho com cabo curto e outro com cabo longo giram em círculos de tamanhos diferentes e podem se encontrar. Fundeie com espaçamento compatível, e prefira ficar atrás de quem chegou antes, não à frente.

O procedimento, na ordem que a norma descreve

  1. Aproe ao vento ou à corrente, o que estiver dominando o barco. É a orientação em que a embarcação vai ficar de qualquer forma depois de fundeada.
  2. Ponha o motor em neutro e deixe o barco perder o seguimento.
  3. Largue a âncora com a embarcação parada ou com pequeno seguimento à ré. Jogar tudo de uma vez com o barco andando à frente empilha o cabo em cima da âncora e é a receita para ela não unhar.
  4. File o cabo aos poucos, até completar o comprimento calculado.
  5. Confirme que a âncora unhou. Deixe o cabo tesar e tome uma marcação em dois pontos fixos em terra, em direções bem diferentes. Se em alguns minutos os dois alinhamentos continuarem os mesmos, ela pegou. Um leve ré com o motor, aplicado devagar, ajuda a cravar a unha e a testar.
  6. Remate o cabo num ponto de fixação estruturado — cunho, malhete ou olhal de proa. É onde o lais de guia faz o serviço, porque forma um olhal firme e continua desatável depois de puxar.

E acompanhe. Um alinhamento em terra conferido de tempos em tempos é o alarme de garra mais barato que existe.

O aviso sobre o motor, que é sobre afundar

O item 6 do Anexo 4-B termina com uma frase que parece um detalhe e não é:

"O cabo de fundeio não deve ser amarrado próximo ao motor, pois o peso do motor poderá somar-se à tração vertical do cabo provocando emborcamento e afundamento da embarcação."

Traduzindo: fundear pela popa, ou amarrar o cabo perto do motor, junta duas forças que puxam o mesmo canto do barco para baixo — o peso do motor e a tração do cabo. Em embarcação pequena, com pouca reserva de flutuabilidade na popa, isso enche o barco de água por ré. A norma é explícita ao dizer que o resultado pode ser emborcamento e afundamento.

A regra prática que sai daí é curta: fundeia-se pela proa. A proa é feita para subir na onda, o ponto de fixação está alto e o barco fica aproado ao vento, que é justamente onde ele oferece menos resistência.

Vale casar essa informação com o item 9 do mesmo anexo, que trata de estabilidade e lembra que a maioria dos acidentes fatais decorre de má estabilidade, orientando o condutor a manter as pessoas sentadas perto do centro de gravidade. Barco pequeno é sensível a onde o peso e a tração são aplicados, e o fundeio é um dos momentos em que isso aparece.

FAQ

Qual o comprimento de cabo que devo largar ao fundear?

De cinco a sete vezes a profundidade local. O número está no item 6 do Anexo 4-B da NORMAM-211, que trata dos procedimentos para fundear a embarcação. Não confunda com os vinte metros mínimos de cabo ou amarra do item 4.18.4, que são dotação obrigatória a bordo.

A profundidade do cálculo é a que aparece no ecobatímetro?

Não. Some à profundidade medida a altura do ponto de fixação acima da água e a amplitude da maré até a preamar seguinte. É esse total que se multiplica por cinco a sete. Calcular pela leitura crua do ecobatímetro é o erro mais comum e o que costuma fazer a âncora garrar quando a maré enche.

Posso fundear pela popa?

Não é recomendável, e a NORMAM-211 explica por quê: o cabo de fundeio não deve ser amarrado próximo ao motor, porque o peso do motor pode somar-se à tração vertical do cabo e provocar emborcamento e afundamento da embarcação. Fundeia-se pela proa.

Como sei que a âncora pegou?

Tome dois alinhamentos em terra, em direções bem diferentes, depois que o cabo tesar. Se eles se mantiverem por alguns minutos, a âncora unhou. Aplicar um leve ré com o motor, devagar, ajuda a cravar a unha e a testar o fundeio.

Que tipo de fundo segura melhor?

Areia e lama firme, para a maioria das âncoras de embarcação de recreio. Pedra e cascalho seguram por travamento, com resultado imprevisível. Vegetação densa é o pior caso, porque a unha desliza sobre as folhas sem alcançar o fundo. A natureza do fundo vem indicada na carta náutica.

Qual a distância mínima entre barcos fundeados?

A norma não fixa número. O critério prático é o raio de giro: cada barco gira em torno da própria âncora num círculo cujo raio é o cabo largado mais o comprimento do casco. O item 13 do Anexo 5-F manda considerar as embarcações próximas ao escolher o comprimento de amarra.

Preciso de âncora a bordo por obrigação?

Sim, exceto nas embarcações miúdas. O item 4.18.4 da NORMAM-211 exige âncora compatível com o tamanho da embarcação e com no mínimo vinte metros de cabo ou amarra.

Fundear ajuda em caso de pane no motor?

Ajuda, e é uma das primeiras providências quando a profundidade e o local permitem, porque impede que a deriva leve a embarcação para a arrebentação ou para um canal de tráfego. O assunto está detalhado em pane seca e reboque.

Resumo

Fundeio bem feito é uma conta e um procedimento, e a NORMAM-211 dá os dois. A conta é o comprimento de cabo: cinco a sete vezes a profundidade local, sendo que a profundidade correta soma a leitura do ecobatímetro, a altura do ponto de fixação acima da água e a amplitude da maré até a preamar. O procedimento é aproar ao vento ou à corrente, pôr o motor em neutro, largar a âncora com a embarcação sem seguimento e filar o cabo aos poucos.

Antes de tudo isso vem a escolha do lugar, que se decide por fundo, abrigo e espaço para girar — e depois de tudo isso vem a confirmação, que se faz com dois alinhamentos em terra e não com a sensação de que pegou.

O aviso final é o que mais custa caro quando ignorado: o cabo não vai perto do motor. A norma diz, com essas palavras, que a soma do peso do motor com a tração vertical do cabo pode emborcar e afundar a embarcação.


Fundeio é um dos itens do programa de manobras da prova. Faça um simulado grátis — as questões vêm com gabarito comentado e o item da NORMAM-211 citado na resposta, para você conferir o número em vez de decorar.

CarteiraNáutica

Por Equipe CarteiraNáutica

Escrevemos sobre a habilitação náutica amadora da Marinha — Arrais-Amador, Motonauta, Mestre-Amador — sempre com a norma de origem citada na resposta.

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