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Hipotermia no mar: reconhecer, aquecer e o erro que agrava

Por Equipe CarteiraNáutica ·

Hipotermia é o risco que acompanha toda queda n'água, mesmo em água que não parece fria. E ela tem uma característica cruel: o sinal de agravamento parece melhora. Quem para de tremer não está melhorando — está piorando.

O programa do exame de Arrais-Amador cobra primeiros socorros e sobrevivência, e a bibliografia recomendada pelo Anexo 5-A indica o aplicativo da Cruz Vermelha (FICR) como referência. Este artigo segue as Diretrizes Internacionais de Primeiros Socorros, Ressuscitação e Educação da FICR, edição 2025.

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Hipotermia é a condição em que a temperatura central do corpo cai abaixo de 35 °C e não consegue funcionar adequadamente; a circulação sanguínea reduz significativamente, especialmente nos pequenos vasos da pele.

Trinta e cinco graus é o limiar. E entre os fatores que intensificam o risco, as diretrizes citam o uso de álcool ou substâncias — que é exatamente a combinação mais comum num passeio de fim de semana.

Há ainda um agravante silencioso: algumas condições reduzem a capacidade da pessoa de perceber que perdeu uma quantidade significativa de calor. Ou seja, a vítima pode não reconhecer o próprio quadro.

Reconhecer, em dois estágios

Os sintomas dependem da temperatura e da gravidade. Vale ler as duas listas em sequência, porque a passagem de uma para a outra é o que importa.

Quadro inicial

  • tremor
  • coordenação ruim
  • movimentos lentos
  • confusão leve
  • pele mais pálida, acinzentada ou perdendo a cor
  • coloração azulada em lábios, orelhas, dedos das mãos e dos pés

Quadro que piorou

  • ausência de tremor
  • desorientação, falta de memória
  • pele exposta fica azulada e inchada
  • pode ficar incoerente ou se comportar de forma irracional
  • a coordenação continua piorando; a pessoa não consegue andar nem usar as mãos

O item que abre a segunda lista é o mais importante do assunto: parar de tremer é sinal de agravamento, não de recuperação. O tremor é o mecanismo do corpo para gerar calor; quando ele cessa, o organismo perdeu essa capacidade.

E é esse sinal que decide o tipo de aquecimento.

Aquecimento passivo ou ativo

As diretrizes separam os dois casos com clareza.

Consciente e tremendo vigorosamente → aquecimento passivo.

Pode ser aquecida passivamente com saco de dormir, fleece ou manta 100% poliéster, com barreira contra vento ou vapor. A cabeça e o corpo devem ser cobertos para minimizar a perda de calor por convecção e evaporação. Vale usar roupa seca e quente ou material reflexivo. A pessoa deve contrair e relaxar grandes músculos para gerar calor interno.

Parou de tremer → aquecimento ativo.

Se a pessoa parou de tremer, o socorrista deve aquecê-la ativamente, preferencialmente com um cobertor elétrico. Bolsas de água quente, almofadas térmicas ou pedras aquecidas podem ser usadas como alternativas.

Com uma cautela obrigatória: sempre com uma camada entre o item e a pele, para evitar queimadura.

Situação Aquecimento
Consciente e tremendo Passivo — saco de dormir, manta, roupa seca; cobrir cabeça e corpo; contrair e relaxar músculos
Parou de tremer / responsividade alterada Ativo — cobertor elétrico, bolsa de água quente ou almofada térmica, sempre com camada de proteção

Os dois "não" que caem em prova

Não friccione a pele. As diretrizes são explícitas: friccionar pode danificar a pele e os músculos subjacentes. O gesto instintivo de esfregar os braços de quem está com frio está errado nesse contexto.

Não aplique pedras quentes diretamente na pele. Pelo risco de queimadura — daí a camada de proteção.

A roupa molhada, e quando cortá-la

A diretriz manda retirar a pessoa da fonte de frio e remover roupas molhadas. Mas acrescenta uma condição que surpreende:

Se a pessoa está em hipotermia moderada a grave, as roupas devem ser cortadas para minimizar seu movimento, pois isso poderia levar a arritmias cardíacas perigosas.

Ou seja: em quadro avançado, tirar a camiseta pela cabeça é um risco. Movimentar a vítima pode desencadear arritmia. Corta-se a roupa justamente para não mexer nela.

Depois, é preciso isolá-la do chão, colocando uma barreira entre a pessoa e o solo — uma lona, um saco de dormir — para minimizar a perda de calor por condução. Numa embarcação, o convés molhado é a superfície que rouba calor.

Bebida quente, e o que não dar

Se a pessoa está consciente e capaz de engolir, o socorrista deve oferecer uma bebida quente e açucarada — chocolate quente, por exemplo — ou algum alimento de alta energia.

Duas condições cumulativas: consciente e capaz de engolir. Fora disso, nada por via oral.

E entre as medidas de prevenção listadas, uma vale destaque para a navegação de recreio: evitar álcool. Ele aparece tanto na lista de fatores que intensificam o risco quanto na de prevenção — e, no caso da condução de embarcação, conduzir sob efeito de álcool é infração prevista no RLESTA, que pode ensejar suspensão e, na reincidência, cancelamento da CHA.

O passo a passo

  1. Retire a pessoa do frio ou proteja-a de mais resfriamento.
  2. Remova as roupas molhadas — cortando-as, se o quadro for moderado a grave — e seque a pessoa com cuidado. Cubra e proteja do frio.
  3. Se consciente e tremendo, deixe-a aquecer com saco de dormir ou manta. Se puder engolir, ofereça bebida quente e açucarada ou alimento de alta energia.
  4. Se com responsividade alterada e sem tremor, aqueça gradualmente com cobertor elétrico, bolsa de água quente, almofada térmica ou pedras aquecidas — sempre com uma camada entre o item e a pele.
  5. Tranquilize a pessoa e monitore a respiração e o nível de resposta.

E a regra que fecha: em todos os casos de hipotermia, o serviço de emergência deve ser acionado, e a via aérea, a respiração e a circulação devem ser monitoradas.

Por que isso é assunto náutico

Hipotermia e afogamento andam juntos — as diretrizes registram que ambos seguem enchentes e tsunamis, e citam a hipotermia entre os riscos de quem está no mar.

Na prática de recreio, a sequência típica é conhecida: queda n'água, resgate, roupa encharcada, vento no convés. A vítima sai da água e o risco continua.

Por isso as duas coisas se combinam no atendimento. No afogamento, as diretrizes mandam manter a pessoa aquecida, cobrindo com roupa seca e protegendo do chão frio, tanto no caso consciente quanto no inconsciente que respira — é literalmente o passo 3 do protocolo de hipotermia embutido no de afogamento, detalhado em afogamento: primeiros socorros.

O treinamento obrigatório do Arrais-Amador também trata do tema: a norma inclui, na parte teórica, noções sobre sobrevivência e segurança em especial para situações de queda n'água envolvendo hipotermia.

FAQ

A partir de que temperatura é hipotermia?

Quando a temperatura central do corpo cai abaixo de 35 °C e o organismo não consegue funcionar adequadamente.

Parar de tremer é bom sinal?

Não. É sinal de agravamento — o tremor é o mecanismo do corpo para gerar calor, e a ausência dele aparece na lista de sintomas do quadro que piorou.

Posso esfregar a pele de quem está com hipotermia?

Não. As diretrizes orientam expressamente a não friccionar a pele, porque isso pode danificá-la e aos músculos subjacentes.

Quando devo cortar a roupa da vítima?

Em hipotermia moderada a grave. As roupas devem ser cortadas para minimizar o movimento da pessoa, que poderia desencadear arritmias cardíacas perigosas.

Posso dar bebida quente?

Sim, se a pessoa estiver consciente e capaz de engolir. Uma bebida quente e açucarada, ou alimento de alta energia.

Qual a diferença entre aquecimento passivo e ativo?

Passivo é para quem está consciente e tremendo vigorosamente: saco de dormir, manta, roupa seca, cobrindo cabeça e corpo. Ativo é para quem parou de tremer: cobertor elétrico, bolsa de água quente ou almofada térmica, sempre com camada entre o item e a pele.

Preciso chamar socorro médico?

Sim. Para todos os casos de hipotermia, as diretrizes orientam acionar o serviço de emergência e monitorar via aérea, respiração e circulação.

Álcool ajuda a aquecer?

Não. O uso de álcool aparece entre os fatores que intensificam o risco de hipotermia, e "evitar álcool" está na lista de prevenção das diretrizes.

Resumo

Hipotermia é temperatura central abaixo de 35 °C. Reconheça pelo tremor, coordenação ruim, confusão e coloração azulada — e entenda que parar de tremer é piora, não melhora.

Tremendo e consciente: aquecimento passivo, cobrindo cabeça e corpo, com bebida quente e açucarada se puder engolir. Sem tremor: aquecimento ativo, com cobertor elétrico ou equivalente e sempre uma camada entre a fonte de calor e a pele.

Dois "não" decisivos: não friccione a pele e não aplique fonte quente diretamente. E em quadro moderado a grave, corte a roupa molhada em vez de despir a pessoa — movimentá-la pode desencadear arritmia.


Primeiros socorros segue a bibliografia que a norma indica. Faça um simulado grátis de Arrais-Amador — resultado por unidade e a fonte citada em cada resposta.

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