Afogamento: como resgatar sem virar a segunda vítima
Por Equipe CarteiraNáutica ·
Primeiros socorros é uma das dez frentes do programa do exame de Arrais-Amador, e o afogamento é o seu núcleo náutico. A referência não é escolha nossa: a bibliografia recomendada pelo próprio Anexo 5-A indica o aplicativo da Cruz Vermelha (FICR), que é a face de consumo das Diretrizes Internacionais de Primeiros Socorros, Ressuscitação e Educação da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.
E a norma estabelece a regra de desempate: havendo conflito com outras fontes, valem para efeito de prova as informações da bibliografia recomendada. Este artigo segue a edição 2025 dessas diretrizes.
A regra que salva duas vidas
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A diretriz é direta sobre a prioridade:
Quem presta socorro deve estar atento ao perigo e sempre priorizar a própria segurança.
E sobre como isso se traduz em ato:
O socorrista deve permanecer fora da água e prover flutuação a partir de uma posição segura. A motivação humana de ajudar, especialmente de parentes e amigos, expõe o socorrista a um perigo significativo de afogamento, que pode causar morte.
A instrução técnica que decorre disso é alcançar ou lançar:
- alcançar a pessoa com um objeto — uma vara, um galho, uma toalha; ou
- lançar algo que flutue — uma boia, um colete salva-vidas, caixas flutuantes ou qualquer coisa que boie.
Nadar até a pessoa está associado a alto nível de perigo para o socorrista, treinado ou não, e deve ser evitado sempre que possível. Se a situação tornar isso necessário, o socorrista deve levar um dispositivo de flutuação.
E o motivo é físico, não moral: uma pessoa consciente em afogamento provavelmente entrará em pânico e agarrará qualquer pessoa ou coisa que se aproxime. Por isso a diretriz manda sempre oferecer flutuação à vítima e usar um flutuador para proteger a si mesmo.
Há uma exceção nomeada: quem já está na água sobre uma prancha ou caiaque, com boa competência aquática, experiência, preparo físico e algum flutuador, pode tentar o resgate antes mesmo de pedir ajuda.
Numa embarcação, isso é uma vantagem enorme. Você tem boia com retinida, colete, cabo e o próprio casco — todo o material de "alcançar e lançar" já está a bordo por exigência da norma, como detalha material de salvatagem obrigatório.
Reconhecer o afogamento
A diretriz insiste num ponto contraintuitivo:
O afogamento costuma ser silencioso. Uma pessoa em sofrimento pode não acenar nem pedir ajuda.
Os sinais que indicam afogamento em curso:
- comportamento incompatível com a capacidade da pessoa — uma criança sozinha na água, alguém nadando em área funda;
- não responde à pergunta "você está bem?";
- boca abaixo da linha d'água, ou a pessoa engasgando e cuspindo;
- aparenta dificuldade para respirar;
- cabeça submersa, ou a pessoa de bruços;
- a posição do corpo mudou de horizontal (posição de nado) para vertical — pode parecer que ela está subindo uma escada invisível;
- braços empurrando para baixo, como um moinho na superfície;
- tenta nadar numa direção e não sai do lugar;
- não se move em direção alguma, apenas sobe e desce;
- o desaparecimento de alguém visto por último na água.
Reconhecido o sofrimento, o socorrista deve pedir ajuda imediatamente — a outras pessoas, a salva-vidas ou ao serviço de emergência — e, se possível, alguém deve permanecer no local observando constantemente onde a pessoa está na água.
Depois de tirar da água
Já em terra ou a bordo, verifique resposta, abra a via aérea e cheque a respiração. O atendimento muda conforme o estado.
Consciente e respirando
- Ajude a pessoa a descansar em posição confortável, preferencialmente sentada ou deitada de lado.
- Avalie melhor a condição.
- Mantenha-a aquecida, cobrindo com roupa seca e protegendo do chão frio — o risco seguinte é a hipotermia.
- Monitore de perto, porque podem surgir dificuldades respiratórias.
E uma cautela que quase ninguém conhece: dificuldades respiratórias podem se desenvolver depois, então convém que alguém permaneça com a pessoa monitorando por cerca de oito horas. Se houver dificuldade para respirar ou tosse persistente, procure atendimento médico.
Inconsciente e respirando normalmente
- Coloque em posição de recuperação, de lado, para manter a via aérea aberta e permitir que fluidos drenem.
- Acione atendimento médico avançado e siga as instruções.
- Mantenha aquecida com roupa seca, protegendo do chão frio.
- Monitore de perto — a condição pode se deteriorar rapidamente, com vômito ou piora da respiração.
Inconsciente e com respiração anormal
Respiração anormal aqui inclui respirações irregulares ou ruidosas, ou parada respiratória.
- Grite por ajuda e peça a alguém que acione o serviço de emergência. Se estiver sozinho, acione você mesmo — de preferência com o viva-voz do telefone.
- Abra a via aérea e dê duas a cinco ventilações de resgate iniciais, soprando de forma constante por um segundo, até ver o tórax ou o abdome subir.
- Inicie a RCP — os parâmetros de ritmo e profundidade estão em RCP a bordo.
As três coisas que o afogamento tem de diferente
As ventilações fazem parte da RCP. A diretriz é explícita: ventilações de resgate devem ser aplicadas como parte da RCP em quem se afogou e está inconsciente com respiração anormal. E o afogamento começa com duas a cinco ventilações antes das compressões. Só-compressão é a alternativa para quem não quer ou não consegue ventilar — nesse caso, 100 a 120 compressões por minuto.
Ressuscitação dentro da água não é para leigo. A diretriz não recomenda que socorristas leigos façam ressuscitação na água. Ela só deve ser tentada por resgatistas específica e repetidamente treinados em técnicas de resgate por contato, e apenas em condições seguras.
Não existe "tirar a água do pulmão". A diretriz não prevê nenhuma manobra para drenar água. O que ela prevê é o contrário: esteja preparado para virar a pessoa de lado, porque ela provavelmente vai vomitar — e é o vômito, não a água engolida, que ameaça a via aérea.
Durante a RCP, fique atento a sinais de vida como movimento ou tosse; havendo algum, pause a RCP por até dez segundos para ver se a pessoa respira sozinha.
Sobre o DEA: se houver um desfibrilador externo automático facilmente acessível, ele pode ser usado. As pás devem ser aplicadas sobre pele seca — seque a área antes. Mantenha RCP contínua até o aparelho começar a analisar e reinicie assim que a análise terminar.
E a regra final: sempre procure atendimento médico para quem passou por afogamento e recebeu RCP.
Prevenção, que também é matéria
As diretrizes trazem medidas de prevenção, e três delas conversam diretamente com a navegação de recreio:
- competência na água — nadar, flutuar, usar colete salva-vidas, reconhecer perigos locais, saber resgatar e fazer RCP;
- o sistema de dupla: toda atividade na água deve ser feita com pelo menos mais uma pessoa;
- supervisão constante e próxima de crianças pequenas e nadadores inexperientes por quem cuida delas.
A quarta é institucional e aparece nominalmente: defender que regulamentações seguras de navegação, transporte marítimo e balsas sejam estabelecidas e cumpridas.
FAQ
Devo nadar para socorrer alguém se afogando?
Sempre que possível, não. As diretrizes orientam permanecer fora da água e prover flutuação alcançando com um objeto ou lançando algo que flutue. Nadar é de alto risco para o socorrista, treinado ou não; se for inevitável, leve um flutuador.
Por que a pessoa se afogando pode me puxar?
Porque, estando consciente, ela provavelmente entrará em pânico e agarrará qualquer pessoa ou objeto que se aproxime. Por isso a diretriz manda oferecer flutuação a ela e usar um flutuador para se proteger.
Preciso tirar a água do pulmão da vítima?
Não. As diretrizes não preveem manobra para drenar água. O que elas preveem é estar preparado para virar a pessoa de lado, porque ela provavelmente vai vomitar.
Faço RCP só com compressões no afogamento?
Não é o padrão. No afogamento, as ventilações de resgate devem fazer parte da RCP, começando com duas a cinco ventilações iniciais. Só-compressão é a alternativa para quem não quer ou não consegue ventilar.
Como sei que alguém está se afogando?
O afogamento costuma ser silencioso. Observe corpo passando de horizontal para vertical, braços empurrando a água como um moinho, boca na linha d'água, tentativa de nadar sem sair do lugar, e ausência de resposta à pergunta "você está bem?".
Posso usar desfibrilador em quem se afogou?
Pode, se houver um facilmente acessível. As pás devem ser aplicadas sobre pele seca, com RCP contínua até o aparelho iniciar a análise.
A pessoa se recuperou. Posso liberá-la?
As diretrizes recomendam que alguém permaneça com ela monitorando por cerca de oito horas, porque dificuldades respiratórias podem se desenvolver depois. Havendo dificuldade para respirar ou tosse persistente, procure atendimento médico.
Qual a fonte de primeiros socorros para a prova de Arrais?
A bibliografia recomendada do Anexo 5-A indica o aplicativo da Cruz Vermelha (FICR). E a norma estabelece que, havendo conflito com outras fontes, valem para efeito de prova as informações da bibliografia recomendada.
Resumo
A primeira regra do resgate é a segurança de quem socorre: fique fora da água, alcance com um objeto ou lance algo que flutue. Nadar é o último recurso, e mesmo assim com flutuador — porque a vítima consciente entra em pânico e agarra o que vier.
Reconheça cedo: o afogamento é silencioso, e o sinal mais claro é o corpo passando de horizontal para vertical, como quem sobe uma escada invisível.
Fora d'água, o afogamento tem três particularidades: ventilações fazem parte da RCP, começando com duas a cinco; ressuscitação dentro da água não é para leigo; e não se tira água do pulmão — o que se espera é vômito, e a preparação é virar a pessoa de lado.
Primeiros socorros é uma frente inteira do programa. Faça um simulado grátis de Arrais-Amador — resultado por unidade e a fonte citada em cada resposta.
Por Equipe CarteiraNáutica
Escrevemos sobre a habilitação náutica amadora da Marinha — Arrais-Amador, Motonauta, Mestre-Amador — sempre com a norma de origem citada na resposta.