RCP a bordo: ritmo, profundidade e o que muda numa embarcação
Por Equipe CarteiraNáutica ·
Fazer RCP numa embarcação junta duas dificuldades: o convés balança e o espaço é apertado. As diretrizes internacionais não têm um protocolo náutico separado — o que elas têm são parâmetros precisos e uma orientação sobre superfície que resolve boa parte do problema a bordo.
A referência é a que a bibliografia recomendada do Anexo 5-A indica: o aplicativo da Cruz Vermelha (FICR), face de consumo das Diretrizes Internacionais de Primeiros Socorros, Ressuscitação e Educação, edição 2025. Este artigo traz os parâmetros e o que eles implicam num barco.
Quando iniciar
Cansou de ler?
Faça um simulado grátis no formato da prova, com gabarito comentado.
O gatilho é sempre o mesmo: pessoa sem resposta e com respiração anormal. Respiração anormal aqui inclui respirações irregulares ou ruidosas, ou parada respiratória.
A instrução é direta: inicie as compressões torácicas imediatamente e acione o serviço de emergência.
Os parâmetros
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Local das compressões | centro do tórax — metade inferior do esterno |
| Ritmo | 100 a 120 compressões por minuto |
| Profundidade | cerca de 5 cm; evitar mais de 6 cm |
| Ciclo com ventilações | 30 compressões : 2 ventilações |
| Duração de cada ventilação | um segundo, até ver o tórax subir |
| Pausa para as duas ventilações | menos de dez segundos |
| Troca de socorrista | a cada dois minutos, sempre que possível |
Quatro observações que as diretrizes fazem questão de registrar:
Permitir o retorno completo do tórax. O socorrista deve evitar apoiar-se sobre o tórax entre as compressões, para permitir o recuo completo da parede torácica. Compressão que não solta é compressão que não enche o coração.
A RCP pode começar pelas compressões, em vez das ventilações — no adulto e no adolescente sem resposta e com respiração anormal. A exceção é o afogamento, que começa com duas a cinco ventilações, como está em afogamento: primeiros socorros.
Ventilações são para quem é capaz e está disposto. O ciclo 30:2 vale para quem quer e consegue ventilar. Quem não quer ou não consegue mantém só compressões, no mesmo ritmo de 100 a 120 por minuto.
Rodízio a cada dois minutos. É a medida contra a fadiga — e a fadiga chega mais rápido do que se imagina. Se houver outra pessoa a bordo, combine a troca antes de começar.
O que muda numa embarcação
A superfície firme. As diretrizes orientam que as compressões sejam feitas, quando possível, sobre uma superfície firme — mas com uma ressalva decisiva:
As compressões não devem ser significativamente atrasadas para mover a pessoa.
Traduzindo para o barco: não perca tempo procurando o lugar ideal. Um convés rígido serve. Se a pessoa está sobre uma almofada ou um colchonete, retire o que der em segundos; se não der, comece assim mesmo. A perda de tempo custa mais que a superfície imperfeita.
O movimento. O balanço atrapalha a estabilidade de quem comprime, não a técnica. Ajoelhar-se firme, apoiar o corpo e usar o peso — não a força do braço — é o que mantém ritmo e profundidade com o barco em movimento. Se possível, reduzir a velocidade ou parar melhora as condições, e a Regra 8 do RIPEAM autoriza reduzir ou parar quando necessário.
O espaço. Convés de embarcação pequena raramente permite o posicionamento clássico. O que não se negocia é o local da compressão — centro do tórax, metade inferior do esterno — e os parâmetros de ritmo e profundidade.
Quem chama o socorro. Se você está sozinho com a vítima, acione o serviço de emergência você mesmo, preferencialmente com o viva-voz do telefone, para não interromper as compressões. A bordo, o VHF é o canal — as frequências de socorro, urgência e segurança estão na alínea h do programa do exame.
Desfibrilador
Se houver um DEA — desfibrilador externo automático — disponível:
- continue a RCP enquanto o aparelho é preparado, pausando apenas quando ele estiver pronto para a análise e, se indicado, para o choque;
- retome as compressões imediatamente após o choque, e mantenha as pausas antes e depois dele o mais curtas possível;
- em caso de afogamento, aplique as pás sobre pele seca — seque a área antes.
Os erros que custam eficácia
Reunindo o que as diretrizes destacam:
Comprimir raso. Cerca de 5 cm é a referência; abaixo disso, a compressão não gera fluxo.
Comprimir fundo demais. Evitar mais de 6 cm.
Apoiar-se entre as compressões. Impede o retorno completo do tórax.
Pausas longas. A interrupção para as duas ventilações deve levar menos de dez segundos.
Não trocar de socorrista. A qualidade cai com a fadiga; o rodízio de dois minutos existe por isso.
Perder tempo movendo a vítima atrás de superfície melhor.
Uma nota sobre tecnologia: as diretrizes não recomendam o uso de dispositivos de feedback de RCP em tempo real para melhorar a ressuscitação.
Segurança de quem socorre
Duas orientações que valem sempre, e mais ainda a bordo:
Precauções de segurança. O socorrista deve adotar precauções apropriadas — equipamento de proteção e isolamento de substâncias corporais — quando viável e quando houver recursos, especialmente se souber que a pessoa tem infecção grave.
Prioridade à própria segurança. É o princípio que abre o capítulo de afogamento e vale para todo atendimento: quem se torna a segunda vítima deixa duas pessoas sem socorro.
E a regra que fecha qualquer atendimento em água: sempre procure atendimento médico para quem passou por afogamento e recebeu RCP.
FAQ
Qual o ritmo correto das compressões?
De 100 a 120 compressões por minuto.
Qual a profundidade das compressões?
Cerca de 5 cm no adulto e no adolescente, evitando profundidade maior que 6 cm.
Qual a relação entre compressões e ventilações?
Trinta compressões para duas ventilações (30:2), para quem está disposto e é capaz de ventilar. Cada ventilação deve durar um segundo, até ver o tórax subir.
Posso fazer RCP só com compressões?
Pode. Quem não quer ou não consegue dar ventilações deve manter apenas as compressões, no mesmo ritmo de 100 a 120 por minuto.
Preciso mover a vítima para uma superfície firme?
Quando possível, sim — mas as diretrizes são explícitas ao dizer que as compressões não devem ser significativamente atrasadas para mover a pessoa. Num barco, comece onde está.
De quanto em quanto tempo devo trocar de socorrista?
A cada dois minutos, sempre que possível, para mitigar os efeitos da fadiga.
Como uso o desfibrilador durante a RCP?
Continue a RCP enquanto o aparelho é preparado, pause apenas para a análise e, se indicado, para o choque, e retome as compressões imediatamente depois. Em afogamento, aplique as pás sobre pele seca.
A RCP começa por compressões ou ventilações?
Nos casos gerais, a RCP pode começar pelas compressões. No afogamento, começa com duas a cinco ventilações de resgate.
Resumo
Parada com respiração anormal: comece as compressões imediatamente e acione socorro. Centro do tórax, metade inferior do esterno, 100 a 120 por minuto, cerca de 5 cm de profundidade, sem apoiar-se entre as compressões.
Com ventilações, ciclo 30:2, cada ventilação de um segundo e a pausa total abaixo de dez segundos. Sem ventilações, só compressões no mesmo ritmo. E rodízio de socorrista a cada dois minutos.
A bordo, a regra que mais importa é a da superfície: procure uma firme, mas não atrase as compressões para mover a pessoa.
Primeiros socorros é uma frente inteira do programa. Faça um simulado grátis de Arrais-Amador — resultado por unidade e a fonte citada em cada resposta.
Por Equipe CarteiraNáutica
Escrevemos sobre a habilitação náutica amadora da Marinha — Arrais-Amador, Motonauta, Mestre-Amador — sempre com a norma de origem citada na resposta.