Marcação, azimute e alinhamento: os três jeitos de se localizar
Por Equipe CarteiraNáutica ·
Você avista um farol pela amura de bombordo e quer registrar onde ele está em relação ao barco. Diz "o farol está a 40 graus"? Quarenta graus a partir de quê — do norte, ou da proa? A resposta muda completamente a posição, e é por isso que a navegação não usa uma palavra só para isso: usa cinco.
Este artigo separa rumo de marcação, apresenta os cinco tipos de marcação com a referência de cada um, mostra a fórmula que converte marcação relativa em verdadeira, e explica o alinhamento — que é ao mesmo tempo a forma mais simples de saber onde você está e o método clássico de descobrir o erro da sua agulha. É matéria de Mestre-Amador, e vale saber disso de saída.
Onde isso cai — e onde não cai
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O programa do Anexo 5-A da NORMAM-211 para o Mestre-Amador traz, na alínea b, "navegação estimada e costeira: plotagem de um ponto por coordenadas geográficas e por linhas de posição; conversão de rumos e marcações; determinação da posição de partida e chegada por marcações simultâneas e sucessivas; distância entre dois pontos; determinação do desvio da agulha por alinhamento".
No programa do Arrais-Amador nada disso aparece. O que o Arrais cobra na vizinhança é a alínea c, "instrumentos náuticos e eletrônicos, agulha magnética (bússola)..." — o instrumento, não o método de posicionamento.
Ou seja: se você está estudando para o Arrais, este é conteúdo adiantado. Se está indo para o Mestre, é o coração do programa. A comparação entre as duas provas está em Mestre-Amador.
Rumo é para onde você vai. Marcação é onde está a coisa
A distinção que organiza tudo. Pelo Manual de Navegação da Marinha:
"Um navio (ou embarcação) governa seguindo um RUMO, que pode ser definido como o ângulo horizontal entre uma direção de referência e a direção para a qual aponta a proa do navio."
E:
"MARCAÇÃO é o ângulo horizontal entre a linha que une o ponto no navio, a partir do qual se faz a observação do objeto marcado, e um outro objeto em uma determinada Direção de Referência."
Rumo descreve a sua proa. Marcação descreve a direção de um objeto visto de bordo. Os dois são ângulos horizontais medidos de 000º a 360º, no sentido horário, a partir de uma direção de referência.
Duas convenções de escrita que caem em prova, e valem para os dois: sempre três algarismos na parte inteira, e precisão de 0,5º. Escreve-se 045º, 072º, 180º, 347,5º — nunca "45 graus".
Vale ainda distinguir rumo de proa: proa é a direção para a qual o barco aponta num dado instante, e nem sempre se consegue mantê-la rigorosamente no rumo, por efeito de ondas, vento e erro do timoneiro. E há os rumos práticos, usados em rios, canais estreitos e águas confinadas, quando você se orienta por referências de terra em vez das agulhas.
Os cinco tipos de marcação
O que muda entre eles é só a direção de referência. Mas errar a referência é errar a posição.
| Tipo | Sigla | Medida a partir de |
|---|---|---|
| Marcação Verdadeira | Mv | Norte Verdadeiro |
| Marcação Magnética | Mmg | Norte Magnético |
| Marcação da Giro | Mgiro | Norte da Giro |
| Marcação da Agulha | Mag | Norte da Agulha |
| Marcação Relativa | Mr | Proa do navio |
As quatro primeiras partem de um norte; a quinta parte da proa. É essa a fronteira que confunde.
A Marcação Verdadeira é a que se plota na carta — obtida do próprio documento cartográfico ou da leitura da agulha giroscópica combinada com seu desvio. A Magnética parte do Norte Magnético e sai da agulha magnética combinada com seu desvio. A diferença entre os nortes, e entre declinação e desvio, está em agulha magnética: declinação e desvio.
A mesma lógica vale para os rumos, com as mesmas siglas: Rv, Rmg, Rgiro, Rag, além de Rp para rumos práticos e Rfd para o rumo no fundo.
A fórmula que converte relativa em verdadeira
Marcação relativa é a mais intuitiva de tirar a bordo — você olha da proa para o objeto — e a mais inútil para plotar, porque muda toda vez que o barco guina. A conversão é direta:
Mv = Mr + R
Some o rumo à marcação relativa e você tem a marcação verdadeira. Se o resultado passar de 360º, subtraia 360º.
Um exemplo do próprio manual: no rumo verdadeiro 045º, um objeto na marcação relativa 270º está na marcação verdadeira 270º + 045º = 315º.
Marcação polar: o través, a amura e a alheta
Existe ainda uma sexta forma, que é a que se usa falando: a Marcação Polar (Mp). Ela é medida a partir da proa para boreste ou para bombordo, de 000º a 180º, e recebe sempre a designação do bordo.
É por isso que se diz "farol a 090º BB" em vez de "farol na marcação relativa 270º" — as duas frases descrevem a mesma direção, o través de bombordo.
A conversão passa pela relativa. Continuando o exemplo do manual: um navio no rumo verdadeiro 045º marca um farol exatamente no través de bombordo, ou seja, Mp 090º BB. Isso equivale a Mr 270º. Aplicando a fórmula, Mv = 270º + 045º = 315º.
Para bombordo, a relativa é 360º menos a polar. Para boreste, a relativa é a polar.
Azimute: quando a referência é um astro
Na prática de bordo, "marcação" é o termo usado para objetos terrestres — faróis, pontas, balizas. Azimute é o termo consagrado quando o objeto observado é um astro, e a navegação usa os azimutes de astros como um dos métodos para determinar o desvio da agulha.
Vale a honestidade de escopo: azimute de astro pertence à navegação astronômica, assunto do exame de Capitão-Amador, cujo programa abre justamente com "Navegação Astronômica". Para o Mestre, o que interessa é que ele existe e é um dos quatro métodos de determinação de desvios.
Alinhamento: dois objetos, uma linha de posição
Alinhamento é o conceito mais simples e mais poderoso desta lista. Quando dois objetos conhecidos e visíveis se apresentam exatamente um atrás do outro, você está, necessariamente, sobre a linha reta que passa pelos dois. Essa reta é uma linha de posição — e ela não depende de instrumento nenhum, nem de conta.
É por isso que ele serve a dois propósitos distintos:
Como linha de posição de segurança. Manter dois objetos alinhados é manter-se sobre uma rota conhecida — é o princípio das luzes de alinhamento que balizam canais de acesso, e o motivo de elas aparecerem representadas em como ler uma carta náutica.
Como método de calibragem da agulha. É aqui que ele entra no programa do Mestre. A operação de determinação dos desvios é chamada de regulamento ou calibragem da agulha, e o manual lista quatro métodos: comparação com a agulha giroscópica, alinhamentos, marcação de um ponto distante e azimutes de astros.
O procedimento por alinhamento é engenhoso na sua simplicidade. Obtém-se da carta a marcação verdadeira do alinhamento — que é um dado fixo, conhecido, impresso. Depois faz-se o barco cruzar esse alinhamento em proas diferentes, e a cada passagem se registra a marcação da agulha no instante exato em que os dois objetos ficam um atrás do outro. Como a direção real é sempre a mesma, toda diferença observada é erro do instrumento.
Comparando a marcação magnética do alinhamento com as marcações da agulha registradas, obtêm-se os desvios. E como se repete o cruzamento em várias proas, o resultado é a Curva de Desvios — que existe porque o desvio da agulha muda conforme o rumo em que se navega.
Alguns cuidados que a norma técnica registra: as observações se fazem em proas equidistantes (de 15º, 30º ou 45º), o barco deve permanecer de 3 a 4 minutos em cada proa antes da leitura, para que o magnetismo induzido produza efeito, e as guinadas devem ser lentas. Os desvios se determinam com precisão de 0,5º, embora sejam registrados na tabela em grau inteiro. Ao fim, tabela e curva devem ficar afixadas junto à agulha para consulta.
FAQ
Qual a diferença entre rumo e marcação?
Rumo é o ângulo entre uma direção de referência e a proa da embarcação — para onde você vai. Marcação é o ângulo entre uma direção de referência e a linha que liga o observador ao objeto marcado — onde está a coisa que você vê.
Quantos tipos de marcação existem?
Cinco, conforme a direção de referência: verdadeira (Norte Verdadeiro), magnética (Norte Magnético), da giro (Norte da Giro), da agulha (Norte da Agulha) e relativa (proa do navio). Há ainda a marcação polar, medida da proa para boreste ou bombordo, de 000º a 180º.
Como converter marcação relativa em marcação verdadeira?
Somando o rumo: Mv = Mr + R. Se o resultado ultrapassar 360º, subtraia 360º.
O que é marcação polar?
É a marcação medida a partir da proa para boreste (BE) ou para bombordo (BB), de 000º a 180º, sempre acompanhada da designação do bordo. Um objeto no través de bombordo está na marcação polar 090º BB.
Qual a diferença entre marcação e azimute?
Marcação é o termo usado para a direção de objetos terrestres observados de bordo. Azimute é o termo consagrado quando o objeto é um astro, e azimutes de astros são um dos métodos de determinação do desvio da agulha.
O que é um alinhamento em navegação?
É a situação em que dois objetos conhecidos aparecem exatamente um atrás do outro. Quem os vê alinhados está sobre a reta que passa pelos dois — uma linha de posição obtida sem instrumento nem cálculo.
Como o alinhamento serve para calibrar a agulha?
Obtém-se da carta a marcação verdadeira do alinhamento e faz-se a embarcação cruzá-lo em várias proas, anotando a marcação da agulha em cada passagem. Como a direção real é fixa, as diferenças revelam os desvios, que compõem a Curva de Desvios.
Isso cai na prova de Arrais?
Não. Conversão de rumos e marcações, marcações simultâneas e sucessivas e determinação do desvio por alinhamento estão no programa do Mestre-Amador. O Arrais cobra a agulha magnética como instrumento, na alínea c.
Resumo
Marcação e rumo são ângulos horizontais medidos de 000º a 360º no sentido horário, com três algarismos e precisão de meio grau — a diferença é o que se está descrevendo: a proa, no caso do rumo; a direção de um objeto, no caso da marcação. Os cinco tipos de marcação se distinguem apenas pela referência, e a conversão da relativa para a verdadeira é uma soma: Mv = Mr + R.
O alinhamento merece atenção especial porque resolve dois problemas com o mesmo gesto. Ele dá uma linha de posição de graça, sem instrumento — dois objetos um atrás do outro e você sabe sobre que reta está. E, porque sua direção verdadeira é conhecida e fixa na carta, ele denuncia o erro da agulha: cruzando-o em várias proas e anotando o que a agulha marca, você levanta a curva de desvios do seu próprio barco.
Marcação e alinhamento são programa de Mestre-Amador, e o Mestre exige Arrais em dia. Faça um simulado grátis — 40 questões no formato do exame da Marinha, com gabarito comentado citando a fonte de cada resposta.
Por Equipe CarteiraNáutica
Escrevemos sobre a habilitação náutica amadora da Marinha — Arrais-Amador, Motonauta, Mestre-Amador — sempre com a norma de origem citada na resposta.