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Carta náutica: como ler escala, sondagens e datum

Por Equipe CarteiraNáutica ·

Você abriu a carta náutica da sua área pela primeira vez e encontrou um bloco de texto no canto, cheio de números que parecem código: "ESCALA 1:300.000 (3º 30')", "Profundidades em metros reduzidas aproximadamente ao nível da baixa-mar média de sizígia", "Posições: referidas ao Datum WGS-84". Nada disso está explicado na própria carta, e é justamente aí que mora a informação que decide se você vai encalhar.

A boa notícia é que esse bloco tem ordem fixa e dez elementos, definidos pela DHN. Este artigo destrincha o título da carta item por item, mostra o que a escala realmente significa na hora de escolher qual carta usar, e explica por que a sondagem impressa não é a profundidade que você vai encontrar. Antes disso, uma questão de escopo que economiza estudo.

Carta a bordo é obrigatória. Plotagem não cai no Arrais

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Duas informações que costumam ser confundidas, e que a norma separa com clareza.

Levar a carta é obrigação. O item 4.20 da NORMAM-211 é direto:

"As embarcações de esporte e recreio, exceto as miúdas, deverão dotar cartas náuticas relativas às regiões em que pretendem operar, em local acessível e apropriado."

A norma aceita um Sistema de Cartas Eletrônicas (ECS) como cumprimento dessa exigência. E dispensa as miúdas — as de até seis metros —, no mesmo espírito de aliviar exigências dessa classe que você encontra em embarcação miúda.

Plotar na carta não é matéria do exame de Arrais. O programa do Anexo 5-A da NORMAM-211, item 3.1, lista dez assuntos, e carta náutica não é nenhum deles. Quem cobra carta é o Mestre-Amador: o programa dele traz "simbologia e abreviaturas usadas nas cartas náuticas brasileiras" e "conhecimento e uso da Carta Náutica", e a prova tem quatro questões com utilização de carta náutica, além de exigir régua, esquadros, transferidor e compasso na bolsa. Os detalhes estão em Mestre-Amador.

Ou seja: se você está estudando para o Arrais, ler carta não é onde investir as horas finais. Mas você vai ter uma a bordo por obrigação legal — e saber lê-la no nível deste artigo é o que separa carregar um papel de usar um instrumento.

O que é uma carta náutica, na definição da DHN

O Manual de Navegação da Marinha define:

"A carta náutica é um documento cartográfico que resulta de levantamentos hidrográficos de áreas oceânicas, mares, baías, rios, canais, lagos, lagoas, ou qualquer outra massa d'água navegável e se destina a servir de base à navegação aquaviária."

Ela representa acidentes terrestres e submarinos, e informa profundidades, perigos à navegação, natureza do fundo, fundeadouros, auxílios à navegação, pontos notáveis, linhas de costa, elementos de marés, correntes e magnetismo. É geralmente construída na projeção de Mercator.

No Brasil, produzir e manter atualizadas todas as cartas náuticas em Águas Jurisdicionais Brasileiras cabe à DHN, por meio do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM). As normas técnicas de construção, tanto em papel quanto digitais, são da Organização Hidrográfica Internacional (OHI).

A carta em papel hoje é impressa sob demanda: quando o cliente compra, ela sai impressa e atualizada até o último Aviso aos Navegantes daquela data.

O título da carta, elemento por elemento

Aquele bloco de texto tem ordem definida. Nas cartas brasileiras, os elementos aparecem assim:

Elemento
1 Área geográfica geral e trecho da costa
2 Referência geográfica específica, descrita do Norte para o Sul
3 Unidade de medida das profundidades
4 Escala natural e paralelo de referência
5 Unidade das profundidades com o datum vertical
6 Unidade das altitudes e seu plano de referência
7 Datum horizontal das posições
8 Sistema de balizamento da IALA adotado
9 Projeção usada
10 Informações sobre os levantamentos hidrográficos de origem

Para efeito de cartografia náutica, a costa do Brasil é dividida em três trechos: Costa Norte, do Cabo Orange ao Cabo Calcanhar; Costa Leste, do Cabo Calcanhar ao Cabo Frio; e Costa Sul, do Cabo Frio ao Arroio Chuí.

O item 8 é o que amarra a carta ao balizamento que você vê na água: as cartas brasileiras trazem "Sistema de Balizamento Marítimo da IALA – Região B", detalhado em balizamento IALA região B.

Escala: por que o número maior significa menos detalhe

A escala é a relação entre um valor gráfico na carta e o valor real correspondente na superfície da Terra. A regra que confunde todo mundo, no texto do manual:

"Quanto maior o denominador da escala, menor ela será."

Uma carta 1:25.000 é de escala maior que uma 1:300.000, e mostra mais detalhe. Na prática: em uma carta 1:25.000, cada milímetro no papel vale 25 metros no terreno; em uma 1:100.000, o mesmo milímetro vale 100 metros.

A classificação da OHI liga escala a tipo de navegação:

Escala Uso Faixa
Pequena navegação oceânica menor que 1:2.000.000
Média travessia e aterragem 1:2.000.000 a 1:350.000
Média cabotagem (costeira) 1:350.000 a 1:75.000
Grande aproximação de portos 1:75.000 a 1:30.000
Grande portos, ancoradouros, canais estreitos maior que 1:30.000

E a regra prática que vale como norma de segurança: sempre que uma área for abrangida por cartas de escalas diversas, navegue na carta de maior escala. O motivo é concreto — um mesmo erro gráfico de plotagem representa algumas dezenas de metros na carta de maior escala e muitos décimos de milha na de menor escala. Perto da costa ou de um perigo, essa diferença é o acidente.

Repare ainda no item 4 do título: a escala vem acompanhada de um paralelo de referência, como em "ESCALA 1:300.000 (3º 30')". Numa carta de Mercator a escala de latitudes varia, e a escala natural só é rigorosamente verdadeira ao longo desse paralelo — normalmente a latitude média da área.

Sondagem não é profundidade: o datum vertical

Este é o ponto que mais gera encalhe, e ele está escondido no item 5 do título, naquela frase que parece burocrática: "Profundidades em metros reduzidas aproximadamente ao nível da baixa-mar média de sizígia".

Nas cartas náuticas brasileiras, as profundidades — as sondagens — são representadas em metros tendo como datum vertical o nível médio das baixa-mares de sizígia. Esse plano de referência é o Nível de Redução.

A consequência prática: a sondagem impressa não é a profundidade que você vai encontrar. Ela é a profundidade naquele plano de referência. A profundidade real é a sondagem mais a altura da maré no instante — e a altura da maré, por sua vez, é a cota vertical acima do mesmo Nível de Redução. Quando a tábua traz altura negativa, a maré está abaixo do Nível de Redução, e a profundidade real fica menor que a sondagem impressa.

A conta e a leitura da tábua estão detalhadas em tábua de marés.

E o item 6 é o espelho disso para o que está acima da água: as altitudes nas cartas brasileiras são medidas em metros tendo como origem o Nível Médio do mar — plano diferente do usado para as profundidades. Faz sentido: a altitude de um farol interessa para o alcance visual, não para o calado.

Datum horizontal: onde o GPS e a carta se encontram

O item 7 do título informa o datum horizontal ao qual estão referidas as coordenadas geográficas de qualquer ponto da carta — tipicamente "Posições: referidas ao Datum WGS-84".

Essa linha ganhou importância com a navegação por satélite, porque o receptor fornece posições referidas ao Sistema Geodésico Mundial (WGS). Se a carta usar um datum regional ou local diferente, plotar a posição do GPS diretamente introduz erro — e são necessárias correções, informadas em nota de precaução inserida na própria carta. Isso vale especialmente para cartas de grande escala.

A regra de bordo, então, é curta: antes de plotar posição de GPS numa carta, confira em que datum a carta está e se há nota de precaução.

Papel, ENC e Raster

A carta náutica tem duas formas de apresentação, papel e digital, e a digital se divide em dois tipos:

  • ENC (Electronic Navigational Chart) — a carta eletrônica vetorial, um banco de dados padronizado em conteúdo, estrutura e formato, produzido sob autoridade de um serviço hidrográfico e usado em sistemas de exibição conforme padrões da OHI. No Brasil, quem produz e mantém é a DHN via CHM. A sigla IENC designa a ENC específica para águas interiores.
  • RNC (Raster Navigational Chart) — a carta digitalizada como imagem. As RNC brasileiras são disponibilizadas gratuitamente para download no site do CHM, e o manual é explícito: o uso delas não dispensa o uso concomitante das cartas em papel atualizadas até o último Aviso aos Navegantes.

Vale a distinção para não confundir com o que a NORMAM-211 aceita: o item 4.20 admite um ECS como atendimento à exigência de ter cartas a bordo.

FAQ

A carta náutica é obrigatória a bordo?

Sim. O item 4.20 da NORMAM-211 exige que as embarcações de esporte e recreio, exceto as miúdas, dotem cartas náuticas das regiões em que pretendem operar, em local acessível e apropriado. Um Sistema de Cartas Eletrônicas (ECS) pode ser aceito.

Carta náutica cai na prova de Arrais-Amador?

O programa do Anexo 5-A da NORMAM-211 não lista carta náutica entre os assuntos do exame de Arrais. Quem cobra é o Mestre-Amador, cuja prova tem quatro questões com utilização de carta e exige material de desenho.

O que significa escala 1:300.000 numa carta?

Que cada unidade medida na carta corresponde a 300.000 unidades no terreno. Quanto maior o denominador, menor a escala e menos detalhe. Sempre que houver mais de uma carta para a área, navegue na de maior escala.

A sondagem da carta é a profundidade real?

Não. Nas cartas brasileiras a sondagem é referida ao Nível de Redução, que é o nível médio das baixa-mares de sizígia. A profundidade real é a sondagem mais a altura da maré naquele instante, que pode ser negativa.

O que é o datum de uma carta náutica?

São dois. O datum vertical é o plano a que se referem as profundidades — nas cartas brasileiras, o nível médio das baixa-mares de sizígia. O datum horizontal é a referência das coordenadas, tipicamente WGS-84, e é o que precisa bater com o seu GPS.

Por que meu GPS e a carta mostram posições ligeiramente diferentes?

Porque podem estar em datum horizontal diferente. Cartas em datum regional ou local exigem correções para plotar posições de satélite, e essas correções vêm em nota de precaução na própria carta.

Qual a diferença entre ENC e RNC?

A ENC é vetorial, um banco de dados padronizado pela OHI para uso em sistemas de exibição. A RNC é a versão em imagem, disponibilizada gratuitamente pelo CHM, e seu uso não dispensa a carta em papel atualizada.

Resumo

A carta náutica é obrigação de bordo para toda embarcação de esporte e recreio que não seja miúda, mesmo que plotar nela não seja matéria da prova de Arrais. Ler o título resolve a maior parte do que você precisa: ele informa em ordem fixa a escala com o paralelo de referência, o datum vertical das profundidades, o plano das altitudes, o datum horizontal das posições, o sistema de balizamento e a projeção.

Duas ideias fazem o resto do trabalho. Denominador maior significa escala menor e menos detalhe — e, havendo escolha, navega-se na carta de maior escala. E sondagem não é profundidade: ela é referida ao Nível de Redução, e a profundidade real depende da maré do momento, que pode inclusive estar negativa.


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CarteiraNáutica

Por Equipe CarteiraNáutica

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